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Entrevista

Mara Gabrilli, 40 anos, é publicitária, psicóloga e vereadora pelo PSDB na Câmara Municipal de São Paulo. Ex-Secretária Especial da Pessoa com Deficiência, foi reeleita com quase 80 mil votos, alcançando o quinto lugar na classificação geral da última eleição paulistana. Tetraplégica há 14 anos, Mara fundou a ONG Projeto Próximo Passo com o objetivo de promover pesquisas para cura de paralisias e projetos de inclusão social para atletas com deficiência e desde 2007 apresenta o programa de rádio Derrubando Barreiras: acesso para todos, na  Eldorado AM. Nessa entrevista a vereadora faz um balanço de sua trajetória política, aponta os avanços da lei de inclusão de PD’s no mercado de trabalho e apresenta seus principais projetos para a próxima legislação.

Sintelmark — Como analisa os avanços com relação à inclusão de PD’s (pessoas portadoras de deficiência) no mercado de trabalho?

Mara GabrilliA Lei de Cotas já foi um avanço. Por esta norma, empresas com cem ou mais funcionários são obrigadas a preencher de 2% a 5% do seu quadro com pessoas com deficiência. Até 2001 o número de contratados era insignificante. No Estado de São Paulo, apenas 601 deficientes estavam empregados. Mas, a partir de 2003, o Ministério do Trabalho começou a autuar empresas que descumprissem a lei e as coisas começaram a mudar. Em abril deste ano, o número de deficientes empregados chegou a 82.301 em São Paulo. Esses números, sem dúvida, representam um avanço na área da empregabilidade das pessoas com deficiência. Essa inclusão deveria acontecer naturalmente, mas ainda há muito preconceito e uma lei que obriga, neste momento, apresenta resultados mais efetivos. Por outro lado, não colocar as pessoas com deficiência no mercado de trabalho – estando elas em fase economicamente ativa – é um desperdício social imenso: tanto para ele (que, empregado, tem mais alta-estima), quanto para a família (que tem mais renda) quanto para a sociedade, que agrega mais cidadãos produtivos e com poder de compra.

Sintelmark — Quais os setores da sociedade mais deficitários quanto à inclusão de pessoas com deficiência? O que falta na cidade para garantir qualidade de vida a essas pessoas?

Mara GabrilliO setor mais importante é o estrutural. Como incluir pessoas com deficiência se a sociedade não oferece ferramentas adequadas para inseri-las? Calçadas acessíveis, transporte adequado e de qualidade (e quantidade), saúde para todos, centros de reabilitação disponíveis e funcionando, rampas nas esquinas, prédios acessíveis fisicamente, cultura, lazer e esporte também para todos. Como uma pessoa com deficiência pode trabalhar se ela não tem saúde para sair de casa? E se sair, como consegue chegar a algum lugar da cidade? E se tem saúde, consegue circular com autonomia e segurança para onde ela vai?
Por isso é tão importante pensar soluções sinérgicas que envolvam todas as áreas estruturais para que a inclusão das pessoas com deficiência aconteça efetivamente.

Sintelmark — Em junho, o Sintelmark e o Sintratel  assinaram na Superintendência Regional do Trabalho - SRT/SP o pacto coletivo para a inclusão de pessoas com deficiência. Qual a importância dessa iniciativa e que impacto pode ter no acesso ao emprego?

Mara Gabrilli — Toda ação que vise à inclusão é bem-vinda. Quando as empresas se sensibilizam e buscam a inclusão é ainda melhor. Porque, infelizmente, vimos ações acontecerem muito mais pelo peso da caneta – e das multas – do que pela consciência cidadã. Você sabia que uma pessoa com deficiência humaniza o ambiente de trabalho? E que determinadas tarefas são até melhor executadas por elas porque exploram as capacidades individuais de cada um? Cada ser humano é diferente do outro – tenha ele alguma deficiência ou não – e isso não o faz melhor ou pior. Apenas diferente. E essa diversidade não apenas humaniza, como também mostra que basta explorar as potencialidades de cada um.

Sintelmark — Quais os principais obstáculos para que se cumpra essa lei?

Mara Gabrilli — A sensibilização dos empregadores. O melhor seria não ter de obrigar, mas contar com a consciência cidadã de inclusão. Fora isso, existem obstáculos duros, causados por anos de exclusão dessas pessoas. Formação acadêmica, profissional, capacitação e o benefício oferecido pelo INSS (aposentadoria que, uma vez a PCD empregada com registro, perde o benefício) são outros obstáculos igualmente difíceis de serem transpostos. Hoje, quando falamos de inclusão no mercado de trabalho, falamos de um conjunto de ações que começa pela capacitação e termina na carteira assinada.

Sintelmark — Até que ponto o benefício do INSS aos PD’s dificulta o ingresso deles no mercado?

Mara Gabrilli — O grande problema da aposentadoria do INSS é que as pessoas com deficiência não confiam que terão o benefício de volta após saírem do emprego – caso este não dê certo. Para conseguir a aposentadoria, já passam por tantas “provações”, que pensar numa segunda empreitada para ter o beneficio desanima qualquer um. O que acontece é que a pessoas com deficiência optam por não abrir mão da aposentadoria, confiando no que está na mão. De certa forma, essa inflexibilidade atrapalha sim. E também não conheço ninguém que tenha conseguido o beneficio de volta.

Sintelmark — No âmbito do governo municipal, quais as leis que amparam os PD’s?

Mara Gabrilli — Nos governos municipal, estadual e federal são inúmeras as leis que amparam as pessoas com deficiência. Desde o Decreto 5296/2004 (que fala sobre acessibilidade no Brasil), quanto às leis que eu mesma venho propondo na Câmara Municipal de São Paulo. Já tenho três projetos que viraram leis – todas de fundamental importância para a cidade. São elas: a Lei 14.441/2007 que cria uma Central de Intérprete de Libras e Guia Intérprete para Surdocegos na cidade; a Lei 14.675/2008 que cria o Programa Emergencial de Calçadas (PEC), pelo qual as calçadas da capital estão sendo revitalizadas e adequadas para a circulação de qualquer pessoa; e a Lei 14.671/2008 que amplia o serviço de reabilitação física e auditiva no município de São Paulo.

Sintelmark — São Paulo já está adaptada para que o portador de deficiência se locomova com facilidade?

Mara Gabrilli — Ainda não. Melhoramos bastante – já temos perto de 400 km de calçadas refeitas, mais de 2.800 ônibus com acessibilidade (mais do que toda a frota brasileira), os prédios públicos – mesmo as escolas – estão passando por reformas com cronogramas de adaptação. Mas é impossível afirmar que vivemos em uma cidade 100% adaptada às pessoas com deficiência. Porém, uma transformação muito mais importante já começou a pipocar pelos quatro cantos da cidade: hoje, fala-se muito mais em inclusão e participação social. As pessoas estão mais sensíveis à causa. Essa preocupação coletiva é o principal motor de transformação. Porque a inclusão acontece de dentro para fora. E essa mudança já posso ver em muitas pessoas.

Sintelmark — Quais as principais conquistas na questão da inclusão dos PD’s e o que mudou no Brasil nos últimos anos?

Mara Gabrilli — Hoje se fala muito mais sobre as pessoas com deficiência. Antes, tinha-se medo, vergonha, preconceito mesmo. Acho que essa foi a mudança mais fundamental. E vem tomando mais força nos últimos anos. Temos muitas entidades, associações, ONGs, OSCIPs e agora até Secretarias Municipais e Estaduais que implementam políticas públicas de inclusão. São Paulo foi pioneira: tivemos a primeira Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida do País e, agora, no Estado, temos uma Secretaria Estadual dos Direitos das Pessoas com Deficiência. Esses são avanços notáveis e aconteceram nos últimos quatro anos.

Sintelmark — Quais as suas principais propostas para a próxima legislação?

Mara Gabrilli — Tenho muito trabalho a fazer. São mais de 30 projetos de leis protocolados que quero dar andamento. Eles dizem respeito à criação de um Censo Inclusão, que pretende descobrir onde estão as pessoas com deficiência; outro que dispõe sobre a obrigatoriedade de disponibilizar cadeiras de rodas em aeroportos, rodoviárias e similares; ainda um que implanta o projeto Ler pra Crer, que levará mais cultura e educação às pessoas com deficiência visual; outro que propõe disponibilizar IPTU em Braille; mais outro que obriga a colocação de avisos sonoros em ônibus (tanto internamente quanto nas paradas); e um que cria programa de inclusão digital das pessoas com deficiência.
Mas tão importante quanto fazer leis, o papel do legislador é de fiscalizar o poder público executivo, acompanhar suas ações e gastos e trazer para a pauta pública as reivindicações da sociedade. Acredito muito na sensibilização da causa, por isso realizo inúmeras palestras sobre o tema para desmistificar a idéia de que a pessoa com deficiência é incapaz. Deficiente é a cidade que não oferece as ferramentas necessárias. Com os meios adequados, uma pessoa com deficiência pode exercer plenamente sua cidadania.